segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Musical Bem Sertanejo - quanta alegria!!!!!!


Alegria!!! 
Esse é o sentimento que define a forma como vi hoje contada a história da nossa música sertaneja, caipira. Sai do teatro com dor "nos carrinho" como se fala...porque passei o espetáculo todo com sorriso aberto. E não se trata de comédia não, fui contaminada com a alegria na expressão do elenco que estava no palco. 

Incrível a energia, o olhar, o prazer que este elenco passou para o público! E olha que fui na segunda sessão, imagino o cansaço de ficar quase 6 horas no palco (cada sessão tem quase 3 horas), mas eles estava lá, com sorrisos lindos, nos brindando com uma história linda, vozes maravilhosas....




Dito isso, vamos tentar falar um pouco sobre esse grande musical. Prá começar é mais uma obra que tem o texto, o roteiro musical e a direção  de Gustavo Gasparani. Falei dele aqui ontem, sobre o musical Romeu e Julieta também dirigido por ele. E o cara mais uma vez foi certeiro.



Dividido em dois atos, o musical conta a historia da música caipira, sertaneja. Mas mais do que isso, fala do viver perto da natureza com respeito e devoção!!! 
Já na abertura do espetáculo o texto pedia: tire o preconceito do seu coração urbano e se permita conhecer o mundo caipira. 
Meus avós maternos vieram da roça. Meu pai, trabalhando no Banco do Brasil e sempre morando em cidades agrícolas, também me proporcionou a convivência com muitas famílias que viviam na roça. Muitas daquelas músicas, meu pai cantarolava em casa. E isso me trouxe uma memória afetiva enorme!
Lembranças boas...lembranças de como é bom a simplicidade e que arte é viver nela.
A poesia, a lida com animais, com a terra...a contemplação do luar, das águas, dos causos...do bem viver.
Tudo isso vem naturalmente nos textos leves e, em alguns momentos engraçados, e temperado com as músicas.
Abre com a Folia de Reis e aí vem um desfile de poesias e melodias como "Um Violeiro Toca" "Luar do sertão", "Chalana", "Romaria", "Cio da terra" só pra citar algumas.

Nos textos poemas de Cora Coralina, Manoel de Barros...tem também Villa-Lobos, Monteiro Lobato entre outros. A obra de Tarsila do Amaral inspira o cenário...aliás, um baita cenário que traz em alguns momentos elementos gigantes no palco.  


Tudo isso serve de parque de diversão para um elenco que que vive a história de uma forma visceral.




No segundo vem a transformação. Mostra o quanto a música caipira teve que se adaptar com a chegada do rock, das guitarras e assim acompanhar o progresso e até onde ela chegou. 



E aí vem  "Fio de Cabelo", "Pensa em mim", "Nuvem de lágrimas", "A Majestade o sabiá", "Tocando em Frente", "Evidências".
A Historia não segue uma cronologia exata, mas mostra o caminho que esses caipiras tiveram que seguir, o quanto tiveram que se transformar e como ganharam o mundo. 

Um destaque? É difícil dizer viu...mas a sequência com o menino da porteira conversando com O Boi Malhado e o Boi Carvão é divina. Pedro Lima (o boi malhado) e Alan Rocha (o boi carvão) dão show!!! Outra sequência fantástica é da pesca e suas histórias de pescadores. Atores maravilhosos e cantores divinos. E falando em vozes, Lilian Menezes: que voz é essa hein?

Musical veio depois das séries que Michel Teló fez no programa Fantástico, da Rede Globo e trouxe um pouco daquele clima que a gente via nas matérias.



E aqui sou obrigada a falar do Michel.
Eu o conheci, como a maioria, com o sucesso estrondoso de "Ai se eu te Pego". E sim, tinha todo meu preconceito dizendo que aquela música era só mais um sucesso embalado no pacote da indústria. 
Quando veio a série "Bem Sertanejo", como gosto da música caipira, parei pra ver meio que torcendo o nariz ( o que esse Teló tem a ver com o caipira?) Ali, eu o conheci melhor e vi que o "Ai se eu te pego" era só um baita sucesso popular no meio de uma história que era bem maior. Passei a respeitar o moço e mais, a admirar.    Porque você sente quando o cara vive aquela história caipira e quando é mais um cantor se passando por apresentador. Senti conhecimento e verdade ali. Em algum momento, recebi, na redação,  um Cd com uma coletânea de releituras de clássicos sertanejos com Michel e convidados intitulada "Bem Sertanejo". Trouxe pra casa e ouvi. Gostei demais.



Mas hoje sai do teatro, definitivamente, fã desse cara. Primeiro por que apesar de ser a estrela do musical, aquele que a maioria quer ver, ele não toma o espaço sozinho, pelo contrário, o elenco todo tem espaço e brilha demais. Michel Teló, está ali para ser um elo de ligação, mas que não se sobrepõe aos outros. 
E segundo porque no fim do espetáculo ele assume o papel dele mesmo e dá um recado muito precioso: "sonhe, mas acima de tudo, lute pelos seus sonhos. Quem disse que é impossível?" e conta a história dele até chegar na "Ai se eu te pego" e aí meus caros, um clipe com imagens de celebridades do mundo inteiro dançando a coreografia do "Ai se eu te pego" é a prova concreta do que ele diz:sonhe e vá atrás que você consegue!




No final, depois de toda a historia contata, o texto te convida a deixar o preconceito de lado afinal, caipira não é sinônimo de atrasado e muito menos de "jeca". caipra é antes de tudo um viver com todos os recursos, mas uma coisa não muda: o respeito pela natureza e pela vida que faz sentido...aquela que valoriza a boa prosa, o luar e olhar e não dispensa uma boa música!!!

Saí do teatro com os versos de "Um violeiro Toca" na cabeça: [Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca/ A viola, o violeiro e o amor se tocam]

Obrigada meus queridos...por tanta alegria!!! Por me fazer lembrar porque eu gosto tanto de correr no mato, acho que é uma forma de eu estar perto desse universo que contempla tanto a poesia e a vida simples ao ar livre!!!!





domingo, 4 de novembro de 2018

Romeu e Julieta - O Musical



Fiquei aqui pensando em como começar a falar deste espetáculo. E acho que a melhor maneira é: trata-se de um musical emblemático para a época em que estamos vivendo no Brasil. Uma época em que precisamos de muito mais atitude do que discurso, precisamos entender que transgredir é viver, que somos uma mistura de raças e cores!!! 
E como precisamos disso!!!

Sim a história é famosa tragédia de amor escrita por Shakespeare há mais de 400 anos. E como continua atual! Todos nós sabemos o final, mas neste espetáculo o tempero maior fica pelo simples fato de ela ser contada pelas músicas do repertório de Marisa Monte.  
A adaptação e roteiro musical ficaram por conta de Gustavo Gasparani e Eduardo Rieche que foram imensamente felizes na seleção das músicas. Ora a poesia delicada, ora o discurso inflamado e certeiro. 
Eu, particularmente, torço o nariz pra musicais, porque não gosto de diálogos cantados e dramatizados. Mas fui assistir Romeu e Julieta porque sou fã absoluta de Marisa Monte  e queria ver como esse repertório seria inserido na trama. Qual não foi minha surpresa em ver que souberam separar bem as duas coisas: os diálogos são interpretados com falas (sem aquela coisa de falar cantando) e as músicas entram para retratar o clima do momento da trama. Todas as músicas lindamente interpretadas pelo elenco, um coral lindíssimo e solos impecáveis. 
Se eu tivesse que fazer uma observação somente seria pela pouca aparição dos músicos: uma banda maravilhosa, dividida em dois andares estrategicamente colocados ao fundo do palco, mas que ficam boa parte escondidos atrás de uma cortina. Aparecem em momentos da peça, mas fiquei com vontade de vê-los mais. 

O cenário é também de se destacar: delicado em alguns momentos e imponente em outros. E traz o clima perfeito pra trama.

Em cena 25 atores, 25 vozes maravilhosas e uma energia linda de se ver. Bárbara Sut interpreta a Julieta. Thiago Machado, o Romeu. Um casal lindo que mistura raças e dá seu recado aos mais atentos. 

O momento que chorei na peça? No final, quando o elenco todo estava no palco agradecendo ao público interpretando "Bem que se quis" e o fizeram com tanta energia chegando junto e tão forte à plateia que me emocionou muito. Ver aquela mistura de talentos em cores de mãos dadas mostrando o quanto somos felizes e  fortes juntos e sob a batuta de nossa cultura, ahhh...chorei de alegria.  
Guilherme Leme Garcia, responsável pela concepção e direção do espetáculo, no texto do programa da peça diz: "Essa obra prima da dramaturgia universal nos aponta a revisão de padrões e nos encoraja a mergulhar em um universo belamente transgressor. Em tempos de ideias alinhadas com horizontes livres, sem fronteiras, torna-se impossível tolerar a falta de reconhecimento de diferentes crenças que respeitam plenamente a verdadeira razão humana e recusam qualquer regra ordinária equivocada que nos impeça uma nova harmonia mundial". 
É isso: Shakespeare, com sua obra nos faz lembrar que, mais do que mil palavras o que vale mesmo são nossas atitudes. 
E não por acaso está no palco um elenco multirracial mostrando que somos muito mais do que um padrão! 
E como somos fortes assim misturados!
Parabéns equipe técnica, produtores, diretores, músicos e elenco. Vocês estão protagonizando a mais pura função da arte transformadora.
E à minha querida Eveline Orth e equipe, meu sempre PARABÉNS por investir tanto, ter coragem e nos proporcionar espetáculos de tanta grandeza como este musical que chegou a Floripa de mala e cuia...com três caminhões de equipamentos e cenários e muito talento!!!
Se você ainda não viu, ainda tem chance de ver: domingo no teatro Pedro Ivo Campos. Garanto que vai sair de lá  feliz e orgulhoso de ver que somos foda na arte de fazer arte!!!!